24 nov 2025, seg

E ela mora comigo, mesmo sem pagar aluguel.


Introdução

A ansiedade não bate na porta.
Ela entra, se senta na beira da cama e começa a falar.
Nesta crônica, você vai conhecer essa personagem que mora comigo — mesmo sem pagar aluguel.


Quem é a Ansiedade?

Ansiedade é uma mulher magra, de olhos fundos e unhas roídas.
Ela fala rápido, pensa mais rápido ainda, e transforma qualquer silêncio em sirene.
Não grita — sussurra.
Mas seus sussurros pesam toneladas.

Ela aparece no banho, no café, no elevador.
Me lembra de tudo que não fiz, e do que talvez nunca vá fazer.
É a gerente do meu caos.
E eu sou o estagiário que nunca dá conta.


Ansiedade no trabalho

No escritório, ela senta ao meu lado.
Enquanto tento responder e-mails, ela me mostra todas as possibilidades de fracasso.
“E se você errar?”
“E se te mandarem embora?”
“E se descobrirem que você não sabe o que está fazendo?”

Ela transforma reuniões em julgamentos.
Silêncios em rejeições.
E atrasos em demissões.


Ansiedade no cotidiano

Ela me faz revisar mensagens antes e depois de enviar.
Me faz ensaiar conversas que nunca vão acontecer.
Me impede de começar projetos, de terminar textos, de confiar em elogios.

Ansiedade é roteirista de tragédia.
E eu sou o ator que nunca decorou o texto.


Ansiedade e saúde

Às vezes, ela me convence de que estou doente.
Que aquele aperto no peito é infarto.
Que aquela tontura é algo grave.
Faço exames.
Tudo normal.
Ela sorri e diz: “Mas e se erraram?”


Como conviver com a ansiedade

Com o tempo, aprendi a reconhecer seus truques.
Quando ela chega, respiro fundo.
Não para expulsá-la, mas para não deixá-la dominar.

Aprendi que nem todo medo é real.
Nem toda urgência é necessária.
Ansiedade não é inimiga — é sinal.
De que algo precisa de atenção.
De que talvez eu esteja exigindo demais.


Conclusão

Hoje, ela ainda mora comigo.
Mas já não escolhe o canal da TV.
Já não me acorda toda noite.
Ela ainda fala.
Mas agora eu escuto com calma.

Porque o nome dela é Ansiedade.
E ela mora comigo.
Mas quem paga o aluguel sou eu.


Link interno sugerido:
Se você gostou desta crônica, leia também Vandirene e a metamorfose do Brasil — outra reflexão sobre os ciclos da vida brasileira.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *