Ela vivia entre os azulejos rachados da cozinha de um apartamento alugado. Escondia-se dos chinelos, dos inseticidas e dos gritos histéricos de quem ainda acreditava que baratas são o fim do mundo.
No entanto, Vandirene não era uma barata comum. Ela tinha ambição.
Numa manhã abafada de janeiro, enquanto escapava de uma vassourada, desejou ser gente. Não por vaidade, mas por sobrevivência.
Ser barata no Brasil é difícil. Por outro lado, ser gente também é, embora gente tenha pelo menos Wi-Fi.
De repente, como num milagre kafkiano ao contrário, Vandirene acordou humana — pele, cabelo, CPF. Tudo novo.
O Brasil, país que transforma qualquer coisa em documento oficial, aceitou-a sem questionar. Assim, Vandirene virou cidadã e iniciou sua jornada rumo ao topo.
Primeiro, arranjou um emprego nada glamouroso: atendente de telemarketing. Para quem ontem comia farelo atrás da geladeira, era um avanço.
Depois, fez curso de inglês. “Hello, my name is Vandirene”, dizia com orgulho, mesmo que o sotaque fosse mais Porto Alegre que Nova York.
Com o tempo, adquiriu um carro usado, claro, mas com ar-condicionado e som Bluetooth.
Além disso, passou a frequentar lugares com ar refrigerado e guardanapo de pano. Fez selfies em frente a restaurantes caros, ainda que só pedisse água com gás.
Assim, a metamorfose social estava completa. Vandirene virou elite. Ou pelo menos acreditava nisso.
Contudo, começou a reclamar de pobre, do barulho e das filas no SUS. Esqueceu que, semanas antes, ela mesma era o barulho, a fila, o SUS.
Comprou um apartamento financiado em 30 anos, decorado com móveis planejados e frases motivacionais em quadros como “Gratidão”, “Foco, força e fé” e “Aqui mora a felicidade”.
No entanto, a felicidade morava no cartão de crédito.
Vandirene passou a seguir influenciadores e aprendeu sobre skincare, investimentos e como parecer rica sem ser.
Virou especialista em meritocracia, dizendo que quem não prosperava era porque não se esforçava. Entretanto, esquecia que ela mesma virou gente por milagre, não por esforço.
Mas o Brasil, país que recicla ironias, resolveu dar um giro.
A crise chegou. O desemprego aumentou. O aluguel, a gasolina, o arroz e o sabonete subiram. Dados recentes do IBGE mostram que o desemprego no país continua alto.
Por isso, Vandirene perdeu o emprego. O carro foi tomado. O apartamento virou dívida. O cartão de crédito, um pesadelo.
Ela tentou vender brigadeiro gourmet, mas ninguém comprava. Tentou virar influencer, mas ninguém seguia.
Voltando ao telemarketing, percebeu que agora exigiam inglês fluente e curso avançado de Excel.
Além disso, a elite, que antes a aceitava com filtros e likes, passou a ignorá-la.
Assim, Vandirene tornou-se invisível. E, num ciclo cruel, quase voltou a ser barata.
Não literalmente, mas quase.
Voltando a viver nos cantos, nos silêncios, nos espaços onde o Brasil esconde seus fracassos. Leia mais sobre a desigualdade social no Brasil no site do IPEA.
Hoje, Vandirene mora num quarto alugado com outras cinco pessoas.
Divide o banheiro, o arroz, o Wi-Fi.
Voltou a comer farelo — agora em forma de biscoito quebrado.
Quando vê uma barata passando, não grita.
Apenas observa. Com respeito e saudade.
Porque, no fundo, ser barata era mais honesto.
Não havia boletos, metas ou humilhações disfarçadas de oportunidade.
Ser barata era sobreviver sem precisar fingir que estava vencendo.
Vandirene aprendeu que, no Brasil, a ascensão social é uma ilusão com prazo de validade.
O topo é frágil, e o fundo é sempre mais fundo do que parece.
A palavra mérito é bonita, usada por quem nunca precisou de milagre.
Hoje, ela não deseja mais ser elite.
Quer apenas não ser esmagada.
Quer um país onde ninguém precise virar gente por milagre.
Onde ser barata não seja sentença, e ser humano não seja punição.
Assim, entre farelos e lembranças, Vandirene segue.
Não como símbolo de fracasso, mas como retrato fiel do Brasil.
Um país onde a metamorfose é constante, mas raramente justa.
Onde o ciclo é cruel e o final feliz, sempre adiado.
